Nietzsche e o Eterno Retorno
O conceito do eterno retorno é “ocultado” nos quatro livros de Zaratustra;
O pouco que é dito não é formulado por Zaratustra mas ora pelo anão, ora pela águia e a serpente.
No caso, o anão é o personagem niilista. Aquele que pensa nada valer a pena, tudo é ruim e tudo continuará a ser sempre ruim no futuro, pois foi sempre assim no passado. Diante disto, Zaratustra fala ao anão:
“Olha esse portal, anão! Ele tem duas faces. Dois caminhos aqui se juntam; ninguém ainda os percorreu até o fim. Essa longa rua que leva para trás: dura uma eternidade. E aquela longa rua que leva para frente – é outra eternidade. Contradizem-se, esses caminhos, dão com a cabeça um no outro: – e aqui, neste portal, é onde se juntam. Mas o nome do portal está escrito no alto: momento.”
Existe uma razão mais geral pela qual há tantas coisas ocultas em Nietzsche: por motivos metodológicos;
Em Nietzsche nunca uma coisa tem um só sentido;
Cada coisa tem vários sentidos que exprimem as forças que agem nela;
Não há “coisa”, somente interpretações, pluralidade de sentidos;
Interpretações que se ocultam em outras, como máscaras encaixadas.
Vontade de Potência
Pergunta: se tudo é máscara, se tudo é interpretação e avaliação, que haveria, então, já que não há coisas a serem interpretadas, nem avaliadas?
Em última instância nada há, salvo a vontade de potência, que é:
- potência de metamorfose
- potência de modelar máscaras
- potência de interpretar
- potência de avaliar
Como é preciso entender a “vontade de potência”?
Não se trata de um querer-viver, pois como o que é vida poderia querer viver?
Não se trata de um desejo de dominar pois como é que dominante poderia desejar dominar?
Zaratustra diz: “Desejo de dominar, mas quem poderia chamar isso de desejo?”
Querer a potência é uma imagem que os impotentes constroem para si da vontade de potência.
Entre as mais bombásticas palavras de Nietzsche: “tem-se sempre que defender os fortes contra os fracos”.
A vontade de potência em seu mais alto grau, sob sua forma intensa ou intensiva, não consiste em cobiçar e nem mesmo em tomar, mas em dar e criar. Seu verdadeiro nome, diz Zaratustra, é a virtude que dá.
E a máscara seja o mais belo dom, isso dá testemunho da vontade de potência como força plástica, como a mais elevada potência da arte. A potência não é o que a vontade quer, mas quem quer na vontade, isto é, Dionísio.
Tudo muda sob a perspectiva de Nietzsche.
O que é olhado do alto para baixo:
- a vontade de potência é afirmação de diferença, jogo, prazer e dom, criação da distância.
O que é olhado de baixo para cima:
- tudo se inverte
- a afirmação reflete a negação
- a diferença em oposição
- somente as coisas em baixo tem inicialmente necessidade de se opor ao que não é elas mesmas
Eterno Retorno
Como explicar que o eterno retorno, sendo ele a mais velha idéia, presente nas raízes pré-socráticas, seja também a inovação prodigiosa, aquilo que Nietzsche apresenta como sua descoberta própria?
Como explicar que o eterno retorno seja o mais desolador pensamento, aquele suscita o “Grande Desgosto” mas que é também o mais consolador, o grande pensamento da convalescença, aquele que provoca o “Super-Homem”?
Eterno Retorno entre os Antigos:
- não tem simplicidade nem o dogmatismo que às vezes lhe são atribuídos
- não é uma constante da alma arcaica
- entre os Antigos o eterno retorno nunca foi puro, mas misturado a outros temas, como o da transmigração
- ele não era pensado de maneira uniforme, mas de maneiras variadas, segundo as civilizações e as escolas
- o eterno retorno não nem total nem eterno, mas consistia sobre tudo em ciclos parciais incomensuráveis
- ligados à interpretações físicas e astronômicas
Eterno Retorno de Nietzsche:
- nem quantidade extensiva ou movimento local, mas domínio de intensidades puras
Nietzsche interessava-se pela física como ciência das quantidades intensivas, e mais além, ele visava a vontade de potência como princípio “intensivo”, como princípio de intensidade pura – por exemplo, vontade de potência não quer dizer querer potência mas, ao contrário, desde que se queira, elevar o que se quer à última potência, à enésima potência.
Na vontade de potência existe um mundo de flutuações intensas, na qual as intensidades se perdem e no qual cada um não pode querer a si sem querer também todas as outras possibilidades, devindo inumeráveis “outros” e apreendendo a si como um momento fortuito.
Por quê? Por causa da morte de Deus e a dissolução do eu, a perda da identidade pessoal.
Deus é a única garantia do EU: um não morre sem que o outro se volatize. E a vontade de potência acontece como princípio dessas flutuações ou dessas intensidades que retornam e repassam através de todas as suas modificações.
Em resumo: O mundo do eterno retorno é um mundo em intensidade, um mundo de diferenças que não supõe nem o Uno nem o Mesmo, mas que se constrói sobre o túmulo do Deus único como sobre as ruínas do Eu idêntico.
O Eterno Retorno é a única unidade desse mundo, unidade que ele só tem “retornando”, é a única identidade de um mundo que só tem a repetição como “mesmo”.
Nos textos publicados por Nietzsche, o eterno retorno não é objeto de exposição final ou definitiva, ele é somente anunciado, pressentido, com terror ou êxtase.
Nietzsche, em suas obras publicadas, tinha apenas preparado a revelação do eterno retorno, mas não a fez e nem teve tempo de explicar essa revelação.
Pelos textos de Zaratustra e por certas notas de 1881-82 nos dizem pelo menos o que o eterno retorno não é:
- não é um ciclo
- não se supõe o Uno, o Mesmo, o Igual ou o equilíbrio
- não é um retorno do Mesmo, ou retorno ao Mesmo
- o eterno retorno é seletivo, por excelência
- o desigual, o diferente é a verdadeira razão do eterno retorno – é porque nada é igual e nem o mesmo que “isso” torna a voltar
- ele é a lei de um mundo sem ser, sem unidade, sem identidade
- longe de supor o Uno e o Mesmo, ele constitui a única unidade do múltiplo enquanto tal.
É preciso entendê-lo com respeito aos próprios acontecimentos ou de tudo o que ocorre – por exemplo, uma infelicidade, uma doença, uma loucura, mesmo a aproximação da morte tem certamente dois aspectos:
- um pelo qual elas me separam de minha potência
- outra pelo qual elas me dotam de uma estranha potência, como de um perigoso meio de exploração, que é também um domínio terrível a ser explorado
Em todas as coisas, o eterno retorno tem a função de separar formas superiores das formas médias, as potências extremas dos estados moderados.
É nesse sentido que o eterno retorno é um instrumento e a expressão da vontade de potência: ele eleva cada coisa à sua forma superior, isto é, à enésima potência.
O que o eterno retorno produz e faz retornar como correspondente à vontade de potência, é o super-homem, que em todas as coisas reteve tão somente a forma superior, a potência extrema.
Bibliografia
DELEUZE, G. Conclusões sobre a vontade de potência e o eterno retorno [1967] In: A Ilha Deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006.
