O Ano da Corda: Uma Entrevista com Linda Montano & Tehching Hsieh
Por Alex Grey e Allyson Grey
Nenhuma dupla de artistas é mais central para a discussão de Experiências em Arte/Vida do que Linda Montano e Tehching Hsieh. Durante anos cada um, em lados opostos do país, delimitaram parcelas inteiras de suas vidas diárias e intitularam-nas arte. Quando soubemos que eles estavam trabalhando juntos em uma obra de um ano de duração, pareceu-nos muito natural. Quando soubemos que eles declararam que iriam passar um ano inteiro em Nova Iorque amarrados entre si por uma corda, pareceu-nos perfeito – porém pouco possível. Alex e Allyson Grey eram artistas casados entre si, e também interessados obsessivamente em cruzar a fronteira entre a arte e a vida. Em Junho de 1984, enquanto o trabalho de Hsieh/Montano ainda estava em processo, High Performance pediu aos quarto artistas que se encontrassem para uma conversa.
Julho, 1983
DECLARAÇÃO
Nós, LINDA MONTANO e TEHCHING HSIEH, planejamos fazer uma performance com duração de um ano.
Nós ficaremos juntos por um ano, nunca ficaremos sozinhos. Nós ficaremos no mesmo aposento ao mesmo tempo, quando estivermos dentro. Nós ficaremos amarrados pela cintura por uma corda de 2,50 m. Nunca nos tocaremos durante este ano.
A performance terá início no dia 4 de Julho, 1983, às 18:00hs, e continuará até o dia 4 de Julho, 1984, às 18:00hs.
—Linda Montano —Tehching Hsieh
Com uma exemplar simplicidade de meios, Tehching Hsieh e Linda Montano criaram uma “arte épica” de um ano de duração. Estranhamente cada trabalho anterior destes artistas os preparou para a austeridade da corda. A corda causa um impacto extensivo e controlado sobre os padrões de suas vidas. Nunca separados, porém sem serem um “casal”, o trabalho dos dois artistas adquiriu muitas camadas de significação. A realidade da corda tornou-se o símbolo da relação…da dificuldade das relações…da inescapável interdependência…A corda torna visível a ligação psicológica que existe entre duas pessoas em uma relação de proximidade física e trás à mostra a verdade de sermos sós, no entanto conectados.
Um dos mais comentados trabalhos de performance em arte, retém uma impenetrável privacidade. Ninguém nunca saberá “como era”, a não ser os próprios artistas. Aqueles que viram ou ouviram falar das performances em arte/vida de Tehching Hsieh e Linda Montano as lembrarão por muito tempo.
Alex e Allyson Grey: Qual foi a primeira vez que vocês se encontraram e o que inspirou a sua colaboração?
Linda Montano: Eu estava vivendo em um Centro Zen ao norte de Nova Iorque. Durante uma viagem à cidade vi um poster de Tehching e literalmente ouvi uma voz no meu coração dizer “Faça um trabalho de um ano com ele.” Eu estava livre para fazê-lo, então pedi à Martha Wilson [do espaço de arte Franklin Furnace, em Nova Iorque] seu número, e liguei para ele, e nos encontramos no Printed Matter onde conversamos intensamente por duas horas. Ele disse que estava procurando uma pessoa para trabalhar junto…e eu estava procurando por ele…então continuamos a negociar, conversando e trabalhando de Janeiro a Julho quando começamos o trabalho.
A&AG (para Tehching Hsieh): Você estava então procurando alguém com quem trabalhar quando conheceu Linda?
TH: Sim. Eu tinha uma idéia sobre este trabalho mas precisava encontrar alguém que quisesse colaborar. Depois que conheci Linda, ela me disse que havia feito um trabalho algemada com Tom Marioni por três dias. De alguma maneira sinto-me muito bem com a colaboração pois Linda fez algo semelhante antes.
A&AG: O que o inspirou para a idéia do trabalho?
TH: Você sabe, fiz performances antes conectando a arte e a vida juntos. Gosto de criar arte sobre a vida de diferentes ângulos. A maioria dos meus trabalhos é sobre a luta para a sobrevivência. Como na obra The Cage minha vida sentiu o isolamento interno – este é um tipo de luta de sobrevivência. E na obra Punch Time Clock fiz a mesma coisa várias e várias vezes, como um homem mecânico, e este é um tipo de luta de sobrevivência. Quando vivi exclusivamente do lado de fora era uma luta com o mundo exterior.
Tive a idéia sobre esta obra porque existem problemas de comunicação entre as pessoas. Sinto que esta é uma luta constante para mim. Então quis fazer uma obra sobre a luta dos seres humanos uns contra os outros na vida. Acho que estarmos amarrados juntos é uma idéia bastante clara, pois acho que para sobreviver estamos todos amarrados. Não podemos prosseguir na vida sozinhos, sem ninguém. Por sermos todos indivíduos temos cada um a nossa própria idéia do que queremos fazer. Mas nós estamos juntos. Então tornamo-nos a prisão do outro. Lutamos porque todos queremos nos sentir livres. Nós não nos tocamos, e isso nos ajuda a ficar conscientes de que esta relação conecta indivíduos, mas os indivíduos são independentes. Não somos um casal, mas duas pessoas separadas. Portanto esta obra é para mim um símbolo da vida e da luta pela sobrevivência. E por que por um ano? Porque daí configura-se uma experiência real de tempo e de vida. Fazer um trabalho por uma ou duas semanas, sinto que pode parecer uma mera performance. Mas fazê-la por um ano torna a obra arte e vida - é uma conexão real e isso tem mais força. Também um período de um ano simboliza coisas que acontecem várias e várias vezes.
LM: Acho que foi isso o que me interessou no trabalho de Tehching; termos interesses semelhantes – fundir a vida e a arte. Por muitos anos tenho enquadrado minha vida na categoria arte, de forma que tudo – lavar louças, fazer amor, andar, comprar, carregar crianças – é visto por mim como arte. Antes, separava as atividades – corria até o ateliê e este era o meu “tempo criativo”. Gradualmente achei esta separação desnecessária e senti que era importante para mim estar atenta o tempo todo – não desperdiçar um segundo. Esta tornou-se a tarefa Arte/Vida que dei à mim mesma, até o resto da minha vida.
Fiz muitos trabalhos, desde 1969, que são experiências com a idéia de permitir que minha vida seja um trabalho de arte. Vivi com pessoas e chamei aquilo de arte. Escrevi Living Art Manifesto em 1975, e mais tarde transformei minha casa em um museu de forma que tudo que fizesse fosse enquadrado como arte. Vivi em galerias. Fiquei trancada em um cômodo por cinco dias, como cinco pessoas diferentes. Tudo isso foi uma tentativa de fazer contar cada minuto. Eu sabia que ao trabalhar com Tehching eu teria a sua experiência de enquadramento de tempo, um ano, e este tipo de rigor artístico me interessa.
A&AG (para LM): Tehching disse o que este trabalho significava para ele. O que este trabalho significa para você?
LM: Por estarmos presos por uma corda mas sem a possibilidade de nos tocar, faço esforço para me manter alerta e atenta porque estou fazendo algo diferente do que faço normalmente. Desta forma eu quebro padrões habituais porque a tarefa de estar amarrado é tão difícil e absorvente que eu só consigo fazer isso. Supostamente existem sete estímulos que podem, simultaneamente, chamar a nossa atenção a cada segundo. Este trabalho pede que a mente preste atenção à uma idéia, não sete, e por ser potencialmente perigoso estar amarrado, ou a mente fica focada ou nossas vidas correm perigo.
Além de treinar a mente, o trabalho trás tantas emoções à flor da pele que o tipo novelesco torna-se entediante. Sinto-me como se tivesse desenterrado raivas e frustrações antigas neste ano e, embora esteja satisfeita de ter sobrevivido à elas, sinto agora que aprisionar qualquer estado emocional por muito tempo é na verdade uma estratégia obsoleta. Por outro lado, por acreditar que tudo que fazemos seja arte – brigar, comer, dormir – então até os aspectos negativos são elevados à categoria de arte. Assim sinto-me muito mais confortável com os aspectos negativos. É tudo parte de um mesmo cenário.
A&AG: Qual seria um dia típico de vocês?
LM: Nós seguimos este padrão. Vamos para cama por volta da meia-noite, Tehching dorme durante a manhã. Eu acordo mais cedo, medito, exercito-me, assisto televisão. Então ele acorda. As vezes corremos. Três vezes ao dia levamos Betty, minha cachorra, para passear. Tiramos uma foto por dia e ligamos o gravador sempre que algum de nós esteja falando. A cada mês revezamos a responsabilidade pela câmera e pelo gravador. Se não estamos fazendo carpintaria, ensinando ou fazendo trabalhos de meio período em galerias, vamos para nossas mesas e nos sentamos de costas por aproximadamente cinco horas.
A&AG (para TH): O que você faze em sua mesa durante o dia?
TH: Penso.
LM: Pensamos sobre aquilo que queremos fazer e depois conversamos até chegarmos à um consenso. Então levamos horas de conversa antes que possamos fazer qualquer coisa.
A&AG: Vocês parecem pensar de maneira diversa sobre o trabalho.
TH: Sim, porque somos dois seres humanos individuais e dois artistas individuais amarrados 24 horas por dia e portanto o individualismo é muito presente neste trabalho. É interessante para mim porque se queremos ser bons seres humanos e bons artistas ao mesmo tempo, este é um mesmo tipo de pancada e de luta. Se queremos uma relação e independência ao mesmo tempo, isso cria uma luta dobrada.
O trabalho tem outros níveis que nos faz sentir mais individuais – existem questões culturais, questões de homem/mulher, questões de ego. As vezes imaginamos que este trabalho é como a Russia com a América. Que jogo complicado de poderes.
LM: Este trabalho levanta diversas questões. Por exemplo, como dois seres humanos podem sobreviver com tamanha proximidade física? Uma jornalista russa queria fazer uma entrevista conosco porque ela disse que os cientistas soviéticos estavam interessados em que exercícios seus astronautas poderiam fazer para prepararem-se para permanecer longos períodos de tempo em uma cápsula espacial. De muitas maneiras o trabalho é valioso, porque acho que é necessário aprender novas normas de sobrevivência e é necessário olhar para os condicionamentos e respostas emocionais que já estejam obsoletas.
A&AG: A espera deve ser grande parte do trabalho.
LM: Nós normalmente fazemos coisas simples, eficientes, para não termos que incomodar um ao outro. Ter 15 minutos no banheiro é um luxo. Se estamos brigando então só fazemos o básico como comer e ir ao banheiro, e essas coisas são feitas rapidamente.
A&AG: O trabalho, obviamente, tem qualidades negativas e positivas.
TH: A maioria dos artistas que colaboram entre si tentam ser um só. Mas ambos temos maneiras bem diferentes de trabalhar e temos idéias diferentes. Para sobreviver temos que nos fazer entender. Isso trás muita negatividade e briga. É parte do trabalho, então não sinto como tão negativo. A parte positiva nós não temos que nos preocupar. Apenas aproveitamos.
LM: Existe muita gente em condições piores que a nossa – uma pessoa amarrada à um trabalho ruim ou à um lugar ruim ou à um casamento ruim. Este trabalho é sobre as realidades da vida. Elas não são sempre fáceis. Freqüentemente teríamos que apenas nos sentar e esperar, às vezes por três semanas, até que a “nuvem do desconhecido” passe.
TH: Algumas pessoas pensam que estou escolhendo sofrer – não acho que queira trazer mais sofrimento para mim, mas o trabalho é difícil e de alguma maneira trás sofrimento. Como artista tenho muito prazer em fazer o meu trabalho. Se não tivesse prazer fazendo um trabalho difícil então não o faria. Não penso que queira sofrer sem motivo. Não sou masoquista.
LM: Os artista escolhem as maneiras que cabem em seu banco de imagens interno. Tehching tem seus próprios motivos para suas imagens. As minhas vêm do mundo austero, católico/espiritual. Acredito que se a vida é difícil e eu escolho fazer algo ainda mais difícil, então posso balancear homeopaticamente as duas dificuldades. Veneno de cobra é usado para curar picada de cobra!
A&AG: Como vocês se sentes não fazendo sexo por um ano?
LM: Na verdade, estou começando a reavaliar a culpa, e ultimamente tenho tido mais disposição para o sacrifício, não por culpa mas por ser uma atitude essencial. Também percebo que não praticar sexo é tão interessante quanto praticar. Além do mais, o toque é superestimado. No passado, por várias vezes agarrei sem energia, disposição ou significado, e chamei aquilo de toque.
TH: Não nos tocamos. Estamos sacrificando o sexo, não negando-o. Nós poderíamos em teoria ter relações sexuais com outras pessoas. Mas esta seria uma maneira de tentar escapar. Não é certo para o trabalho.
LM: Uma vez que damos um comando ao cérebro, assistimos o corpo processá-lo. Quando foi para um convento por dois anos, eu informei à mim mesma que não teria sexo e percebi que a energia ia para outras coisas. Neste ano tive a chance de experimentar com o desejo. Estou excitada? Por quem? Quando? Quanto? Também, uma vez que o corpo não é tocado, a mente é puxada para o astral.
Acredito que nos próximos 200 anos, nós todos estaremos num espaço longínquo portanto porque não praticar agora sexo no espaço-longínquo deixando nossos corpos astrais fundirem.
A&AG: Portanto você está usando o trabalho como um tipo de treino?
LM: Sim. Uma coisa que me interessa muito sobre este trabalho é o fato de uma obra de arte poder ser usada para praticar a consciência remanescente.
A&AG: Faz parte de seu entendimento do trabalho, Tehching – treinar sua consciência?
TH: Sim, mas de maneira secundária. O trabalho torna-se um espelho que mostra minhas fraquezas, minhas limitações, meus potenciais, e treina a minha vontade.
LM: Alguns artistas escolhem trabalhos difíceis. Outras pessoas fazem disso uma celebração – êxtase dionisíaco, para estarem verdadeiramente livres para serem eles mesmos e estarem presentes. É realmente uma questão de escolher o estilo que vai com as suas inclinações e depois ir esperançosamente mudando de direção se não estiver funcionando, ou se os antigos impedimentos não estejam mais lá. Então podemos fazer outra coisa. Talvez terminar em uma montanha fazendo jardinagem.
A&AG: Linda mencionou antes que o trabalho é “potencialmente perigoso”. Como assim?
TH: Não acho que o trabalho seja perigoso. Preciso saber das minhas limitações no trabalho. Portanto faço um ensaio por uma semana para ver o que acontece. Este é apenas um tipo de ajuda técnica. Mas não quero fazer um trabalho que considero muito arriscado – 30% de risco está OK. Acidentes são possíveis de acontecer no trabalho, então temos que ser bastante cuidadosos.
LM: Para Tehching esta não é uma grande questão. Para mim é pois não estou acostumada a tomar grandes riscos físicos. Na verdade tivemos muita sorte que apenas duas coisas perigosas aconteceram. Uma vez Tehching entrou no elevador…e eu estava do lado de fora e a porta fechou. Ele apertou o botão “abrir porta” antes que o elevador descesse, mas por dias tive estas imagens e pesadelos de ser esmagada contra a porta do elevador ou ser cortada ao meio pela corda.
Uma outra vez caminhávamos por Chinatown quando uma mulher correu entre nós em direção à corda e quase espatifou-se. Neste caso a corda foi perigosa para outra pessoa. Andar de bicicleta, um na garupa do outro era mais libertador do que perigoso, mas precisávamos tomar cuidado.
A&AG: Como o trabalho caminha em paralelo com a sua busca espiritual na vida?
LM: Venho de uma tradição bastante rígida e religiosa e fui disciplinada na maior parte da minha vida. Continuo com a disciplina, mas agora uso a maneira artística de ser espiritual.
TH: Não tenho o menor interesse no espiritual mas sou de alguma forma como um monge que é dedicado de maneira séria. Minha dedicação é ao meu trabalho de arte. Estou interessado na filosofia e na experiência de vida. Tento encontrar o sentido de quem sou e do que estou fazendo na minha vida sem Deus. Se digo que não acredito em Deus talvez isso queira dizer que estou tentando encontrar minhas próprias crenças.
A&AG: Quais são as influências em seu trabalho?
TH: A arte de Nova Iorque, Dostoyevsky, Franz Kafka, existencialismo – isso me influência. Também, sou oriental. Cresci em Taiwan, e tenho uma tipo de técnica oriental e um tipo de experiência oriental de vida, que me influenciam. Também minha mãe me influenciou – ela é uma pessoa bastante dedicada.
LM: Minhas influências têm sido – minha avó, que tirava sua dentadura na maioria dos encontros de família e cantava, “If I Had the Wings of an Angel”; minha mãe, que é pintora; Lily Tomlin; Marcel Duchamp; Eva Hesse, e Santa Teresa d’Avila.
Também tenho interesse em usar a arte de maneira terapêutica, provavelmente porque quando tinha 20 anos eu era anoréxica (37 kg) é foi só porque mergulhei na “arte” que saí desta experiência intacta. Por este motivo, eu sempre estarei atenta aos efeitos psicológicos e sociológicos do processo criativo.
A&AG: Agora que ficaram amarrados por quase um ano, como se sentem um em relação ao outro?
TH: Acho que Linda é a pessoa mais sincera que conheci na minha vida e sinto-me muito confortável em conversar – dividir minha personalidade com ela. Isso é o suficiente. Acho que isso é bastante bom. Tivemos muitas brigas mas não sinto que isso seja negativo. Qualquer um que ficasse amarrado desta forma, mesmo se fosse um bom casal, estou certo de que eles brigariam também. O trabalho é sobre ser como um animal, nu. Não podemos esconder nossos lados negativos. Não podemos ser tímidos. É mais que mera honestidade – mostramos nossas fraquezas.
LM: Tehching é meu amigo, confidente, amante, filho, oponente, marido, irmão, companheiro, parceiro de disputa, mãe, pai, etc. Esta lista nunca acaba. Não existe uma palavra ou um arquétipo que caiba. Tenho sentimentos profundos por ele.
A&AG: Conte mais sobre como a relação de vocês progrediu durante o trabalho e como vocês encaram a separação.
LM: Nós desenvolvemos quarto maneiras de nos comunicar. Na primeira fase éramos verbais, conversando uma média de seis horas por dia. Na fase dois – começamos a nos puxar, forçando a corda. Nós conversávamos mas forçar a corda provocava raiva. Na fase três éramos menos físicos entre nós e usávamos gestos, então apontávamos quando queríamos ir ao banheiro ou apontávamos para a cozinha quando queríamos comer. Fase quarto – nós gruíamos, fazíamos lamentações audíveis quando queríamos ir à algum lugar…esse era um sinal para levantar e seguir aquele que iniciou. A comunicação foi do verbal para o não-verbal. Regressou lindamente.
Também foi interessante observar a energia geral do trabalho. Oito dias antes do fim do trabalho, começamos a agir como pessoas normais. Era quase como se tivéssemos emergido de um submarino. Antes disso nos limitávamos apenas a fazer o trabalho.
TH: Nossa comunicação era na maioria sobre o trabalho. Por exemplo, tenho que perguntar à Linda se quero um copo de água. Tira toda a nossa energia.
A&AG: Seu trabalho esteve nos noticiários. Vocês tiveram uma grande projeção nacional. Como vocês se sentem em relação à publicidade?
TH: Tenho sentimentos positivos e negativos. Negativos porque não gosto deste tipo de publicidade. Mas gostaria que as pessoas soubessem. O problema é que elas estão mais preocupadas com questões da vida e não entendem arte. Isso me incomoda. Mas sinto que é positivo que pessoas que ficam sabendo dele sentem alguma coisa mesmo que não saibam sobre arte. Por exemplo, mães com crianças pequenas sempre nos dizem, “sabe, estive presa ao meu bebê por dois anos.” Isso significa que elas entendem de alguma maneira.
LM: Mulheres grávidas também respondem ao trabalho porque tornamos o cordão umbilical visível. Também temos respostas de policiais, feministas, pessoas religiosas, praticantes de sado-masoquismo, pessoas que passeiam cachorros…a imagem evoca muitas projeções.
Na verdade a publicidade chegou até o meu pai…ele é um homem de negócios e leu sobre o trabalho no Wall Street Journal, portanto agora ele apóia muito mais o meu trabalho.
Ser bombardeado pelo mídia ajudou-me a ter um novo entendimento da documentação. Parece que a documentação primária é a mudança interna no performer e no público. Os resultados podem ser sentidos mas nem sempre podem ser fotografados ou expressados.
A&AG: Como se sentem agora que o trabalho chega ao fim?
LM: Estamos muito mais tranqüilos um com o outro agora que está quase no fim, e existe uma nostalgia que antes não acontecia. Mas eu aprendi uma boa lição…dar 100% o tempo todo. Normalmente nas relações eu pensava, “vou me abrir amanhã”, ou “vou me comunicar amanhã”. Agora percebo que a vida é curta, e que é ridículo perder tempo.
Também sinto uma tristeza pelo fato de Tehching e eu não fazermos juntos um trabalho com 80 de anos de duração…talvez o façamos a distância.
TH: Em um nível filosófico, sinto que o trabalho não terminou. É que estamos amarrados psicologicamente. Quando morrermos isso termina. Até lá estaremos todos amarrados.
Tradução da entrevista “The Year of the Rope: An Interview with Linda Montano & Tehching Hsieh”
By Alex Grey and Allyson Grey
In: The Citizen Artist: 20 Years of Art in the Public Arena
An Anthology from High Performance Magazine 1978-1998
edited by
Linda Frye Burnham
and Steven Durland
