Uma voga comum entre artistas – ou pelo menos entre os maus artistas – é um certo tipo de covardia mental na qual eles recusam tomar qualquer tipo de partido, evocando uma noção mal entendida da liberdade nas artes plásticas, ou outro lugar comum do mesmo gênero.
Uma vez que eles têm uma vaga idéia do que é arte o resultado é que eles geralmente acabam confundindo arte com ideterminção.
É necessário então esclarecer o máximo possível o que significa arte, para que possamos traçar uma linha mestra para nos guiar em nosso trabalho e em nossos julgamentos.
O trabalho artístico tem sua origem num impluso inconsciente que aflora de um substrato coletivo de valores universais comuns a todos os homens e de onde tiram suas forças expressivas, e de onde o artista deriva a essência da existência orgânica.
Naturalmente, todo homem extrai o elemento humano desta base, sem perceber e de maneira elementar e imediata. A preocupação do artista está em mergir conscientemente em si mesmo e que, uma vez ultrapassados os níveis do individual e do contingente, ele possa mergulhar profundamente e atingir o germe comum de toda a humanidade. Tudo o que é humanamente comunicável deriva dessa essência e, é através do descobrimento do substrato psíquico que é comum a todo homem que a relação artista-obra-espectador é possível. Desta maneira uma obra de arte tem o valor totêmico de um mito vivo, sem dispersões simbólicas ou descritivas: ela é uma expressão primária direta.
As fundações dos valores universais da arte são dados à nós pela psicologia. Ela é a base comum que impede a arte de fincar suas raízes na origem pré-humana e de descobrir os primeiros mitos da humanidade.
O artista precisa confrontar esses mitos e reduzí-los, através do uso de materiais amorfos e ambíquos, em imagens claras.
Uma vez que essas forças reaparecem com origem no subconsciente, a obra de arte assume um significado meagico.
Por outro lado, a arte sempre teve um valor religioso, desde o primeiro artista-feiticeiro até os mitos pagãos, cristãos, etc.
O ponto chave está em estabelecer a validade universal da mitologia individual.
O momento artístico é portanto aquele do encontro com o mito universal do inconsciente, e de reduzí-lo na forma de imagens.
Fica claro então que o artista pode trazer à luz zonas do mito que são autênticas e virgens e ele deve tanto um extremo gráu de conhecimento próprio quanto um apurado senso de precisão lógica.
Para chegar a tal descobrimento, fruto de uma longa e precisa formação, é necesseario entrar num campo de tecnologia precisa. O artista tem que emergir em sua própria ansiedade, trazendo a tona tudo que for alienígena, aspectos desviantes impostos pelo meio e por si mesmo, para poder chegar ao germe da nossa totalidade onde se está mais perto do germe da totalidade presente em todo homem.
Nós podemos então dizer que a invenção subjetiva é a única maneira de descobrir a realidade objetiva, a única maneira possível de comunicação entre os homens.
Aí chegamos no ponto onde a mitologia individual e universal são idênticas.
Neste contexto fica claro que não se deve preocupar com o simbolismo e a descrição, memória, impressões nebulosas, infância, sentimentalismo: tudo isso deve ser absolutamente excluido. o mesmo deve acontecer com qualquer repetição hedonista de argumentos que já foram esgotados, uma vez que o homem que persiste na exploração dos mitos já descobertos não passa de um esteta ou coisa pior.
Abstrações e referências devem ser totalmente evitadas. Em nossa liberdade inventiva precisamos conseguir construir um mundo que deve ser mensurado dentro de seus próprios termos.
Não podemos absolutamente considerar uma pintura o espaço onde projetamos nossa cenografia mental. É uma área de liberdade onde procuramos descobrir as nossas primeiras imagens.
Imagens que são mais absolutas possíveis, que não podem ser avaliadas pelo que retratam, explicam ou expressam mas unicamente por aquilo que elas realmente são.
